Entalados na Páscoa

A nossa casa na Entalada não foi amor à primeira vista. Para já, a casa (que terá sido edificada por volta de 1870) estava praticamente invisível, submersa numa floresta de giestas e silvas que apenas conseguimos domar após diversos meses de trabalho árduo. Foi apenas quando entrei, com alguma relutância, no seu interior que me deixei conquistar pelos sinais inequívocos do labor e da dedicação do anterior dono: tudo me pareceu ser fruto de um bom-gosto inatacável ou, pelo menos, apto a fazer vibrar a minha caprichosa corda sensível. Da varanda das traseiras às portadas, passando pela curiosa divisão do espaço ou pela engenhosa forma como a luz solar era direccionada para o interior da habitação, tudo me parecia um bem-ordenado conjunto de peças de um puzzle que deveríamos completar com extrema precaução, procurando aproveitar ao máximo as deixas e os sinais deixados pelo pretérito proprietário.

(Que sabemos nós desta fascinante personagem? Muito pouco. Que se chamava Pedro e que vivia no Porto. Que comprou a casa a crédito e que a foi restaurando aos poucos, sobretudo aos fins-de-semana, com a ajuda de alguns amigos. Que era casado com uma mulher mais nova e com ar de ser mais dada aos encantos da cidade. Que o casamento terá chegado ao fim durante as vicissitudes da empreitada e que o banco acabaria por ficar com a casa durante quase uma década até haver uma família com pachorra para desfiar o novelo de burocracias ligado à sua aquisição.)

Apenas uma embirração perdurou durante mais de um ano: um conjunto de 6 azulejos, dispostos na horizontal em duas filas, ao lado do portão de entrada onde se podia ler: O cantinho dos Amigos. Como é óbvio, não era a mensagem que me causava urticária (pelo contrário, desde o primeiro momento que me agradou esta forma inequívoca de dispersar ou dissipar a noção de propriedade), mas sim a forma. Aos poucos, no entanto, fui-me apercebendo que o que de início me parecia tosco ou naïf se tornava lentamente sincero e genuíno até que houve um belo dia em que percebi que poderia ter sido perfeitamente o meu filho de 7 anos a ter desenhado os dois ramos, as oito folhas e as dezoito letras que enfeitam aqueles azulejos. Foi amor à enésima vista.

Vem este longo intróito a propósito do facto de termos tido, no passado fim-de-semana, nada mais nada menos do que oito amigos no nosso cantinho: a Lara, a Marta, o Pedro, o Miguel, a Mariana, o Roda, a Joana e o Frederico. Apesar de não desprezar o desgosto que deve ter tido por se ver forçado a abandonar a casa, gostaria de acreditar que o anterior dono haveria de ficar de alguma forma agradado por termos todos feito jus à inscrição que, se depender de nós, jamais sairá da entrada da mais bela casa da inverneira da Entalada.

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