Alsácia e Castro

A semana passada, levei um pouco de Castro à boca dos alunos do Colégio Novo de Gaia. O pretexto era um desafio da escola para os pais prepararem uma pequena iguaria para os alunos no âmbito do Dia Mundial da Alimentação. A ideia era gira, mas como iria dar bastante trabalho, descartei logo a possibilidade até uma amiga (que não sei se lerá isto ou não) me ter seduzido para participar, dando-me a impressão (admito que errada) de que iria também participar.

Pensei logo que seria giro fazer algo da região onde nasci e da qual fui resgatado com 10 anos sem nunca mais olhar para trás: a Alsácia. E lembrei-me dos biscoitos de manteiga chamados butterbriedele (literalmente pequenos pães de manteiga) que adorava e que comia à fartazana durante as feiras de Natal tão populares naquela região francesa. Lá saquei uma receita da rede e, durante a preparação, lembrei-me que seria giro levar também algo de Castro e pensei logo no mel, no nosso mel, claro, caseiro e crestado com tanto suor, amor e carinho.

Foi um grande stress fazer os butterbriedele! Gosto muito de cozinhar, mas jamais doces que aqui em casa são uma raridade. Fazer doçaria dá pouco espaço ao improviso que é precisamente umas das coisas que mais gosto de fazer quando estou de avental. Apesar de terem ficado assim para o feiote e de se esfarelarem com excessiva facilidade, até que ficaram saborosos. No entanto, para minha grande desilusão, quando os provei não tive nenhum momento proustiano que me transportasse para a minha infância na Alsácia. Paciência, o objectivo também era alimentar os pequenos e instruí-los um pouco sobre a importância das iguarias nas respectivas culturas. Este tinha sido, de resto, o aspecto que a nutricionista do colégio mais sublinhou num derradeiro email que nos enviou antes do dia 16 de outubro.

Para atingir esse objectivo, engendrei também dois pequenos cartazes que apresentassem de forma sucinta e colorida as duas respectivas regiões,

E assim, ao olhar para os dois cartazes impressos, tive de repente uma serendipidade, isto é, descobri de forma acidental algo de que nem sequer sabia andar à procura: uma explicação plausível para gostar de Castro Laboreiro de uma forma tão visceral. Apesar das óbvias diferenças, só então é que reparei numa série de aspectos que aproximam estas duas terras tão distantes.

Em primeiro lugar, a geografia e o clima: ambas são terras montanhosas, periféricas e com tremendas amplitudes térmicas. Em segundo lugar, a língua: em ambas se falam dialectos muito distintos das respectivas normas e a partir das quais se tem uma vista privilegiada sobre os seus longínquos passados linguísticos (o alto-alemão no caso do alsaciano e o galego-português no caso do castrejo). Em terceiro lugar, ambas contêm ou integram duas zonas naturais protegidas: o Parque Natural Regional dos Balões dos Vosges e o Parque Nacional da Peneda-Gerês. Por fim, não deixa de ser curioso o facto de ambas as regiões terem como símbolos elementos da sua fauna: a cegonha e o cão.

E foi assim que, ao fazer biscoitos, descobri que será muito provavelmente por me fazer recordar a infância que gosto tanto de Castro Laboreiro. Agora que penso nisso mais uma vez, lembro-me de ter articulado esta correlação numa das primeiras entradas do blogue. É com grande alegria que penso que a Manela e eu estamos a conseguir proporcionar em simultâneo ao João as diversas infâncias que ambos tivemos: na Alsácia, em Castro e aqui.

O Dia de Alimentação foi um sucesso. Pese embora o facto de ter sido o único homem a participar no meio de dezenas de mulheres, havia iguarias para todos os gostos (provei algumas que adorei oriundas dos Estados Unidos, Brasil, Angola e Equador). Os butterbriedele evaporaram-se num instante e também fiquei muito feliz (e surpreso) ao ver tanta pequenada a querer experimentar o mel de urze e tojo. Para além de meio frasco de 1kg consumido in situ, tive ainda dois frascos que foram comprados por duas mamãs que aliavam a simpatia ao bom-gosto.

Mesmo no final, reparei que meio-biscoito tinha escapado por milagre à voragem das crianças. Peguei nele e, como estava com a faca do mel na outra mão, barrei-o e levei-o à boca. A mistura, que até então não tinha ainda provado, fez transbordar em mim uma pequena avalanche de recordações: de repente, estava de gorro, cachecol e luvas em frente ao Hôtel de Ville a comer um butterbriedele. A outra mão agarrava com força a do meu pai que olhava para as luzes enquanto bebia o seu copo de glühwein. Foi tão bom revê-lo e quis muito que olhasse para mim. Ao escrever isto, juraria que me chega ao nariz o mesmo odor morno a mel, limão, canela e anis.

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